quinta-feira, 5 de julho de 2012

“SE NÃO AGUENTA SEGURAR, NÃO DESCE PRO PLAY!”

Você conhece bem seu próprio corpo? Conhece mesmo? Sabe quais são os pontos fracos e fortes do seu organismo? Claro que tem gente que se gaba por ter um autoconhecimento corporal tão acurado que usa isso pra tentar chupar o próprio cacete, mas me refiro a outro tipo de "sabedoria". É um saber endógeno, de certas nuances não 100% ainda explicadas pela biologia e medicina, um autoconhecimento intuitivo, aquelas situações em que você acha que está sob controle, mas depois descobre que não passa de uma vítima impotente.

Há certos órgãos do nosso corpo que nos deixam na mão, vez por outra. Calma, calma, não tô falando em quem você já pensou. Mencionei ele na quinta linha do parágrafo acima. Pergunto isso porque é bom ter esse conhecimento afiado pois surpresas desagradáveis podem acontecer no futuro. Quem avisa amigo é, diz o ditado. E estando eu em idade mais avançada, cada vez mais sou testado sobre essas mesmas falhas quase todos os dias. O coração que sai do ritmo, a vista que engana, os cabelos que vão embora, a coluna que dói, a barriga que dá inveja em grávida de 9 meses. Há uma defasagem entre meu cérebro e meu corpo. Por exemplo, não posso comer mais as mesmas coisas que botava pra dentro há dez anos. Uma feijoada, aos 25 anos, tinha o mesmo peso que uma banana-prata. 40 anos depois é uma banana-prata que tem o peso de uma feijoada... A verdade é que com a idade o corpo trai a gente. Sou um corno do meu organismo!

Tenho 61 anos, sou escritor e moro no Rio de Janeiro. Tenho uma vida confortável como autor de livros de algum sucesso editorial. Estava chegando de um lançamento em Salvador, Bahia, e minha editora, amiga e vizinha Claudia e sua ótima família foram gentilmente me pegar no aeroporto.

Nessa viagem cometi o grotesco erro de misturar Acarajé, Big Mac e Carneiro com Tâmaras no mesmo dia e no mesmo lugar. Foi assim: acordei meio-dia e tracei o acarajé do restaurante do hotel. Depois fui direto pra livraria na tarde de autógrafos e lá e pelas 4:30 da tarde tive que correr no MacDonald’s e pedir o melhor lixo comestível do mundo: a promoção do Big Mac. À noite fui jantar com meus editores que me levaram pra um restaurante árabe: Cordeiro com Molho de Tâmaras foi o pedido. Assim, essas três iguarias foram parar num mesmo recipiente - o meu estômago - em um espaço de 9 horas. Se imagine botando essas mesmas refeições numa bacia e misturando elas durante 9 horas. Deve ficar nojento, né? Agora imagine essa saroba dentro de um espaço quente e escuro cheio de ácido clorídrico e muita, mas muita Catuaba e Tubaína do Demônio, meus inseparáveis tônicos diários. Não pode dar certo. Não precisa ser formado em Química pra saber que essa mistura vai dar merda. Mas eu, mesmo não tendo diploma em Química, não sei porque diabos achei que ia ficar tudo bem...

No avião já comecei a sentir aquela vontade de cagar miserável e sofrida que produz um frio escroto na barriga. Você começa a suar frio, sente ondas de calor pelo corpo, quer tirar a roupa toda e cagar ali não chão do avião na frente de todo mundo e aquela sensação legal de quem tomou um socão na boca do estômago. E tudo isso acompanhado de uma turbulência agradável que faz você parecer uma coqueteleira gigante prestes a cagar pela boca. Que inferno!

Chegando no Rio já desembarquei com aquela cara de “Quero cagar” mas que só você sabe o que é. Os outros não percebem. No máximo, acham que você tá de ressaca ou que você dormiu mal. Mas, na verdade, você está doido pra botar pra fora uns dois quilos de um cimento marrom nojento o mais rápido possível.

Minha querida Claudia, seu marido Armand e seu único filho de oito anos, o pequeno Tito Lívio, foram graciosamente me encontrar lá de carro. Eles são adoráveis e os primeiros 10 minutos de conversa no carro foram ótimos. Claudia me falou que inauguraram um play ground para crianças pequenas, lindo e super moderno no nosso prédio e que Tito Lívio e sue turminha de alegres amigos já tinham estreado o lugar brincando muito lá. O jovem me contou, animado: “Nós fizemos guerra de areia!’ Muito bem, Tito Lívio!

De repente uma vontade soltar o moreno me pegou com a força de um tsunami! Pensei: “Fo-deu!” Ó puta que pariu minha sogra! Não é possível! Porque isso acontece comigo? Vou ter que fazer cocô na roupa aqui na frente dos outros? Quando era neném faria isso na boa, amarradão, mas hoje em dia, sexagenário, confesso que já perdi o know-how...

Cláudia me fez uma pergunta, mas falava, na verdade, para seu filhinho: "Adolar, você sabe que filme o Tito Lívio e eu vimos outro dia lá em casa? Eu só consegui pensar em "Quero Defecar Aqui e Agora", mas respondi um tradicional e óbvio "Não. Qual?” Ela disse: "Piratas do Caribe"! Ah, que legal. Eu suava que nem um gordo na sauna e fazia uma força hercúlea pra contrair meu esfíncter e ainda tinha que saber que filmes os outros estão vendo com 5 anos de atraso... O pequeno Tito Lívio interveio: "Ôôôô  Adolar, você sabe quem é o herói do Piratas do Caribe? “Eu, desconcentrado, mandei: "Indiana Jones!". Ele berrou no meu ouvido: "Nãããããããããuuuum! É o Jéqui Ispérouuu!" E os dois ficaram me contando animadamente que também assistiram Branca de Neve, A Pequena Sereia, O Rei Leão, O Caralho de Asa, A Puta Que Me Pariu, A Procura de um Banheiro de Rodoviária Qualquer, etc. Estava quase desmaiando e virava o rosto e rilhava os dentes quando senti que a moréia tava saindo forte da caverna. E segurar a moréia não é mole não, meu chapa! Depois que ela bota a cabeça pra fora, não tem volta, brother. Não há força no universo que consiga convencer o bicho a recuar. Não dá! É simples e fisicamente IM-POS-SÍ-VEL!! E nessa luta inglória acabei deixando escapar um pequenino prisioneiro da toca...

Imediatamente, minha amiga Claudia disse em tom alarmado, mas também meio rindo, aquela coisa de mãe que acha tudo lindo o que o filho-neném faz: "Nooossa, o Tito soltou um pum horrível aqui atrás!"
Como o ser humano pode usar sua inteligência para o mal... É incrível, mas em átimos de segundo o cérebro pode pensar da maneira mais terrível para conseguir seus objetivos. Vi ali uma chance de ouro! O pobre Tito Lívio ia levar toda culpa dos litros de metano que eu estava soltando dentro do carro! Sensacional! Ia flatular mais ainda com um álibi infantil perfeito! Achei um bode expiatório, ou melhor um cabritinho expiatório dando sopa!  Adultos não acreditam que outros adultos tenham a coragem de peidar escrotamente dentro de um automóvel com as janelas fechadas e com o ar condicionado ligado! E foi o que fiz, confesso. Fingi que tava ajeitando o cinto de segurança, levantei a bunda do assento e deixei os gases saírem enquanto retinha os sólidos, para o maior bem de todos. Na hora Armand falou alto rindo de nervoso: “Nossa, o que que é isso! Caramba, Tito, esse foi forte, hein? Tá doente, cara? Caraca, tem até que abrir a janela. Viu, Cláu? Cê fica dando Doritos, MacDonalds, Angu do Gomes e outras porcarias pro menino, agora dá nisso aí, né?”
E o pobre Tito Lívio gritando com sua voz fininha de criança: "Não fui eu! Não fui eeeeeu!" Que maldade... tão novo e já tão vítima de uma calúnia tão horrorosa. Naquele momento fiquei consternado com a maldade que eu mesmo tinha acabado de perpetrar contra uma pobre criança inocente, mas o sentido de sobrevivência física e moral peidou mais alto. Tive que fazer isso. Tito Lívio, meu querido, tenho que lhe dizer uma coisa: O mundo é mau. Há guerras, ganância e um ex-presidente que fala como um Pinóquio de nove dedos. Há pedofilia, trabalho-escravo e o programa da Angélica. Sim, meu caro Livinho. Sacrifiquei sua inocência sem hesitar pra não encagalhar seu carro na frente dos outros. Os adultos são assim. Eles se levam a sério demais, né? “O mundo é um moinho”, já dizia a música daquele cara do nariz estranho. Não há muitos mocinhos 100% corajosos como o Homem-Aranha que você tanto admira, meu amigo. Minha dignidade e minha samba-canção nova de seda estavam em jogo. Me perdoe, mas adultos não lidam bem com encher a calça de cocô, muito menos dentro de um carro. Desculpe, meu querido mas nós somos assim, os adultos. Entre nós e as crianças levarem a culpa por fazer tolices, não tenha dúvida: Vocês é quem vão pagar o pato (ou o patinho de borracha, que seja...). Nessa hora, o pobre Tito Lívio já estava meio sem voz de tanto berrar que não tinha sido ele e chorava copiosamente se degladiando e esperneando deitado no banco de trás com tamanha calúnia enquanto Cláudia e Armand discutiam exasperadamente por causa da suposta expurgo estomacal gasoso do filho que era algo similar ao cheiro de um macaco molhado morto à tapa tomando sol há duas semanas na beira do Tiête enrolado com um tapete velho de funerária com gemada e Campari Cereja vomitado por um bêbado gordo cariado e com amigdalite... Que coisa mais desagradável... Eles só concordaram no ponto que semana que vem vão levar Tito Lívio ao médico. Coitadinho...

Mas a verdade é que não adiantou muita coisa. A mistura sacolejante de uma gororoba africana, dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola, picles e um pão com gergelim (e muita química desconhecida!) e pedaços cozidos de Ovis aries com molho de Phoenix dactylifera  ainda estava se comportando como uma lontra viva querendo sair pelo meu curuzu de qualquer jeito. Estava fazendo um esforço sobre humano pra manter esse alien dentro de mim enquanto rezava pra chegar logo em minha casa para poder fazer esse exorcismo fecal sozinho sem ultrajar ninguém. Foi quando ouvi Cláudia dizer: “Aí Armand, deu mole...” E ele respondeu em tom desanimado:  "É ... Dei mole...”
Armand acabara de ERRAR a entrada pro meu bairro para logo parar o carro em um engarrafamento gigante. Como assim “Deu Mole”? Tá drogado??? Você nasceu nessa cidade, seu animal!! Não pode errar!! Estou prestes a estragar o estofamento do seu carro pra todo o sempre e você nos diz simplesmente  que “Deu mole”? Cara, eu vou cagar seu carro inteiro, seu imbecil! Tu tem que botar 200 por hora e subir na calçada!!! Mole vai ser a merda que vai escorrer no estofamento novinho do seu carro, seu viado desatento!

Mas tem horas que a gente admite que a derrota parece ser inexorável. Percebi que iria ter que afastar o banco do carona no qual eu estava sentado para trás, agachar no espaço criado junto ao banco, tirar as calças e cagar com força no tapete do carro novinho dos meus amigos enquanto botava as duas palmas das mãos cobrindo meu rosto em sinal de absoluta vergonha. Não tinha mais saída. Se eu não cagar em 8 minutos vou morrer ou vou começar a arrotar cocô. E esse engarrafamento de merda vai durar 1 hora no mínimo! Como eu, um adulto formado, ia defecar na calça enquanto uma criança de 8 anos mantinha perfeitamente o controle sua funções digestivas? Onde está a justiça no mundo?

Impedir um bostolete de sair de dentro de você quando ele quer e precisa sair é o mesmo que ir numa Escola de Samba na Concentração e chegar na comissão de frente no dia do desfile e dizer: “Aí, vocês não vão poder desfilar mais, beleza? Todo mundo pra casa dormir agora, ok?” Não há Capitão Nascimento que consiga!

Por um absoluto milagre Armand, o desatento, entrou em uma ruela que deu numa pista em que não havia mais tráfego. Que alívio! Uma lágrima escorreu do meu rosto. Na verdade era suor pois estava quase entrando em choque naquela hora de tanto fazer força pra não cagar 5 quilos de merda na calça. Que situação mais miserável ficar preso num carro enquanto se precisa evacuar. De qualquer modo, comecei a afastar o banco pra trás...

Cláudia, animada, me fazia perguntas as quais eu só conseguia responder monosilabicamente pois quando você está tentando muito fechar um buraco do seu corpo não ajuda em nada ficar abrindo um outro. Eles me deixaram na frente do meu prédio. O deles é mais acima. Dei tchau enquanto lembrava que o lesado do Armandinho falou em “MacDonalds” naquela hora né?  Ora mas taí... era pra eu me fuder mesmo...

Sai andando que nem esses caras da Marcha Atlética do carro importado deles – salvo de uma desvalorização eterna por questão de segundos – e me dirigi muito rapidamente para a portaria do meu edifício.
Porém, mais uma vez, mais fui traído por outro órgão desse meu corpinho tão metido a engraçado. O meu cuzão, você diriam? Não, meus amigos... um órgão muito mais maldoso e abjeto que esse e que perde feio de importância social para o antes citado durante o Carnaval. O famigerado cérebro! As poderosas forças do subconsciente me pregaram a hilariante peça que é a seguinte: quanto mais perto você está de chegar na privada para expurgar até os pulmões, alguma coisa dentro da sua cabeça começa a dizer bem alto e com todas as letras que você não precisa trancar mais seu esfíncter com toda sua força e assim você começa a cagar na calça involuntariamente há 10 metros da latrina.. O que antes, longe de chegar em casa, era uma situação difícil porém administrável perto da sua residência se torna um dos maiores problemas do mundo, depois apenas do advento do Sertanejo Universitário. É foda, moçada!

Comecei a suar mais frio ainda e tentei exercer uma pressão de 4 toneladas por milímetro cúbico no olho do meu cu tentado manter  
essa popular válvula corporal muito bem travada. Esforço em vão. Quando fui chegando perto da portaria um curioso fenômeno aconteceu: meu cérebro parou de obedecer  ao dono e agora tinha vontade própria. E a vontade era a de agachar ali e cagar no hall de entrada de um condomínio de luxo no carpete caro, felpudo e novinho na frente de um porteiro usuário de um bigodinho e oriundo do Nordeste do país. Sério: eu odeio meu cérebro! Que filho de uma puta!

Mas não me daria por vencido assim. Sou um orgulhoso do caralho. Defeito que seja, mas não gostaria que o vídeo da câmera de segurança do condomínio, devidamente editado, virasse um hit mundial no You Tube com o titulo “Velho Gagá Caga no Chão Pro Porteiro Ver”.

Desviei pra esquerda antes que o Paraíba acordasse e dei de cara com o Play Ground recém construído do prédio. Nessa altura já estava segurando o “charuto no beiço” e não tinha mais o que fazer a não ser admitir a derrota pro meu próprio corpo e emporcalhar meu terno italiano pra sempre. Num último sinal de raciocínio lembrei que não poderiam ter instalado as câmeras de segurança no Parquinho pois ele era novo demais. Assim arriei as calças como o canalha do meu cérebro tanto queria há horas e dei um salto na direção do balanço. Me agarrei firmemente nas correntes do brinquedo enquanto nesse mesmo instante explodia violentamente da minha bunda uma saraivada miserável de cocô nojento de várias cores mórbidas pra todos os lados. Só deu tempo de firmar os dois pés no assento do balancinho e fazer força pra não cair na areia com merda e sentir o alívio de fazer uma coisa que sua mãe pediu no Carnaval porém somente terminada no Ano Novo.

E lá fiquei eu, no alto dos meus 61 anos, pendurado na forma de um canivete-humano semi-aberto, rodopiando em um balanço do Play com as calças nos tornozelos e com a bunda de fora espirrando violentamente merda líquida / sólida / gasosa na areia e nos outros brinquedos, durante uns 5 minutos. Foi humilhante? Pode ser. Uma cena bizarra? Certamente. Vou misturar comida baiana com hambúrguer e um bicho que faz “Beéééé!” de novo? NUNCA MAIS!!! (a Catuabinha eu vou deixar... Foda-se!)
Extenuado, porem extremante aliviado, depois de me livrar desse incubus merdal saltei de volta pra não deixar pegadas na areia e também pra não pisar na merda à milanesa que tinha acabado de preparar. Abotoei minhas calças e me esgueirei sorrateiramente pela garagem. Cheguei no elevador de serviço e, insuspecto, alcancei o meu apartamento.

No dia seguinte, minha empregada Janeide me fala ao café da manhã: “O sr. viu Seu Adolar? A selvageria que fizero no parquinho das criança?”  Aí ela me mostrou uma circular que o síndico distribuiu para todos os apartamentos do condomínio dizendo que o Play Ground está interditado devido ao “vandalismo medieval sem precedentes”, que será devidamente higienizado , que a areia toda será trocada e que “muito em breve” câmeras de segurança serão lá instaladas. Soube pela minha própria serviçal que meu grande amigo Tito Lívio e sua turba (agora já trocaram o “m” pelo “b”) estão sendo investigados e que são os maiores suspeitos desse ato inominável de barbárie.
Li calmamente a circular e, olhando sob meu óculos fininho de leitura, disse em tom blasé e censurador: “Já era hora de instalarem essa câmeras. Essa juventude de hoje, Janeide... não sei não, viu...”. E voltei tranquilamente ao meu café da manhã e a leitura do meu jornal...

É, meu caro Tito Lívio... O mundo é mau, meu puro, inocente e pequenino amigo... Mau pra cacete, bicho... Porém, aqui vão duas dicas importantes para você lidar com esse lugar arenoso no futuro: o nosso corpo começa a sabotar a gente com a idade e, se você puder fazer Faculdade de Química seria uma coisa bem legal, brother! Um abraço!


Adolar Gangorra tem 63 anos, é editor do site www.adolargangorra.com.br e usa fraldas geriátricas desde os 25 anos pra economizar papel higiênico e, principalmente, tempo.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

"OLHA O VESTIBULAR AÍ, GENTE!"



         Cá estamos nós de novo para analisar mais um sensacional e alucinante vestibular, esse divertido evento avaliador, único e maravilhoso, que marca a vida de todos os que dele participam. Principalmente dos que estão participando há 2, 5, 7, 10 anos

         Bem, o negócio é que, de ano em ano ou de seis em seis meses, renovam-se as esperanças. As turmas de cursinho, nem tanto. Mas, de uma maneira ou de outra, o vestibular acaba se tornando uma grande festa em que todos em comunhão respondem a questões fácies e, acima de tudo, coerentes! É aquela moleza! Mais moleza do que tomar sopa com garfo, né?

         No caso das universidades particulares, por exemplo, a situação não poderia ser melhor! É só fazer a provinha e ir conferir o resultado, que é sempre positivo e pronto! Depois é bom ir conferir o saldo bancário, que é bom também que esteja sempre positivo! Claro, pois quem é que não tem um mísero Audi A-4 que não pode pagar uma mensalidadezinha de nada, não é mesmo?

         E as Universidades Federais? Quem não conhece? Muita gente boa estudando muito para se tornar membro dessa elite intelectual tão consciente! Esforços extremos para se tornar um vestibulando, depois um universitário e logo em seguida, um grevista! Opa, isso sim é que ativismo estudantil, minha gente!

         Então, já que estamos nesse astral super-positivo, vamos dar uma olhadinha nas questões que a moçada traçou no último vestibular da prestigiosa FUMA - Faculdades Unidas Mato Alto. Este humilde cronista traz, em primeiríssima mão, uma pequena mostra do que você, vestibulando ansioso, vai encontrar por aí. Depois, é só "passar”, meu amigo! (Passar vergonha, passar na secretaria do cursinho para renovar a matrícula, passar o dedo na lista dos aprovados e não achar o seu nome, etc.)


LÍNGUA PORTUGUESA

Nas frases "Vende-se Ovos", "Precisa-se de Empregada Doméstica" e "Juvenal Cortou-se com a Faca", os termos sublinhados são, respectivamente:

a) Conjugação da 4ª Pessoa Pretérito do Passado do verbo Ouvir. A rainha do lar. Eufemismo para hemorragia.
b) Complemento sexual. Escravidão adnominal. Advérbio de estupidez.
c) Troço que o meu pai deixa pra fora da bermuda quando ele dorme no sofá. Dodó. Teimosia louca do Juvenal com a mãe.
d) Artigo masculino singular colado com pronome da 2ª Pessoa do Plural. Quero comer ela. Pressa inexplicável para se descascar um abacate.
e) Forma masculina para "avós". Objeto indireto de carteira assinada. Leva logo esse garoto pro hospital, porra!


INGLÊS

Na oração "Half dozen of cat dropped", temos:

a) Pouca gente
b) More or less six faces.
c) Ai dom nou, titchêr!
d) Os Thundercats
e) Vou pedir para cagar e vou sumir daqui.


BIOLOGIA

Qual dos seguintes órgãos abaixo é responsável pela produção de adrenalina e xilocaína?

a) Orelha e as tripa.
b) Camburão e xilofone.
c) Cu e Drogafone.
d) Cristian e Ralf.
e) Presidência da República e Bolívia.


QUÍMICA

Se adicionarmos a uma mistura qualquer de hidrocarbonetos, 4 miligramas de cloreto de bário e 6 quilogramas de nitrato de cromo, teremos:

a) Uma puta explosão.
b) 28 litros de escudeto de baralho com 3 miligramas de barômetro de
contrato.
c) 140 hectogramas de mijo.
d) Super Nescau.
e) 5 quilos de perda de tempo.


HISTÓRIA

Na batalha dos Artrópodes (Nova Iguaçu, 312 a.C. ), um general se destacou por correr atrás de um legionário que se recusava a ordenhar um mamute. Posto isso, que eram, respectivamente, o general, o legionário e prima do mamute?

a) General Motors, Recruta Zero e Preta Gil.
b) Meu pai, eu e minha mãe.
c) Gal. Costa, Sargento Pincel e Luciano do Valle.
d) Newton Cruz, Asterix - o Legionário e Silvia Popovic.
e) Florzinha, Lindinha e Docinho.


MATEMÁTICA

Se um cone escaleno, com vértice de base 14, tem altura na razão de - 2 dúzias romanas, onde fica o vértice helicoidal do trapézio euclidiano que mede mais ou menos 34.102 m?

a) Na cadeira ao lado.
b) No meio do evangelho quadrangular do triângulo redondo.
c) No Egito, na pirâmide de Gizela.
d) Mitose, meiose e frutose.
e) Desculpe, mas eu só sei até a tabuada do 6.


GEOGRAFIA

O estado de São Paulo é o maior fabricante de tacos de sinuca do Brasil. Sabendo disso, qual dessas cidades vai ter exatos 35.756 habitantes no exato momento em que você estiver lendo esse enunciado?

a) Rio Branco
b) Rio Pardo
c) Rio Preto
d) Rio Imundo
e) Rio de Janeiro


FÍSICA

Se um carro sai da cidade A com uma velocidade constante de 100 km/h e ruma para a cidade B, que dista da cidade A em 100 km, quanto o referido carro irá gastar daquela água do limpador de pára-brisa?

a) Nada. O carro em questão é um Lada escroto e não vai nem sair da garagem.
b) 1 quilo.
c) Não sei. Moro na cidade C, nunca fui na A e acho B uma merda.
d) Sou bóia-fria e só ando de caminhão.
e) Caralho, não agüento mais fazer essa prova porque eu fumei maconha pra não ficar nervoso, mas parece que não adiantou nada. Tô fudido, velho! Meus pais vão me encher de porrada se eu não passar nessa merda e vou acabar tendo que servir o Exército aos 34 anos porque foi isso que o meu avô, que era General, jurou antes de morrer. Velho filho de uma piranha!


REDAÇÃO

Escreva uma redação de, no mínimo, 7 mil palavras ou que pese 850 gramas, sobre um dos temas abaixo:

- Os Grandes Expoentes do Humorismo Esquimó
- O Erotismo na Contabilidade Bancária
- Políticos Brasileiros Honestos


IMPORTANTE:

Em caso de dúvida, lembre-se:
- VOGAIS: a, e, i, o, u
- CONSOANTES: b, c, d, f, g, h, j, k, l, m, n, p, q, r, s, t, v, x,y, w, z


TENTE NÃO USAR EM SUA REDAÇÃO AS SEGUINTES PALAVRAS:

- mortandela
- di menor
- pobrema
- véi
- iorgute
- táuba
- pogresso
- di boa
- tchoize
- tomate seco, mussarela de búfala e rúcula
- cu

É BOM USAR EM SUA REDAÇÃO AS SEGUINTES PALAVRAS:

- zwinglianismo
- palindrômico
- gimnosporado
- nambuanhanga
- suarabácti
- colmatagem
- quark
- sindesmotômico
- pelagoscópico
- cu

Adolar Gangorra, 59 anos, é editor do blog Os Reis da Gambiarra e luta pela erradicação do analfabetismo e também, por questões morais e religiosas, do cufabetismo

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

SOBRE O EDITORIAL DOS PORTA-RETRATOS

Os porta-retratos aparentemente são uma parada muito legal. Podemos expor lá as fotos de ótimos momentos que vivemos pros outros verem. Mostrar pra todo mundo como nossa vida é boa e feliz! Umas fotos bem bonitas com gente sorrindo em lugares bacanas e paradisíacos. Tudo é lindo nos porta-retratos. Todo mundo rindo, abraçado, fazendo turismo em outros países, na praia ou na neve. Mas a nossa vida é isso mesmo?

Na minha casa tinham uns porta-retratos também. Tudo era bacana, bonito e alegre neles, mas só que a realidade da minha família não era 100% como lá. Neguinho ficava puto, brigava, discutia todos os dias da semana que continham a palavra “feira”. Nos sábados e domingos ainda ficavam emburrados sem falar uns com os outros. Minha família inventou o "gritálogo", depois aperfeiçoou ele pro "berrálogo". Meu pai trabalhava numa pedreira e os seus chefes pediram pra ele falar mais baixo porque ele estava deixando os colegas meio surdos. É claro que tínhamos muitos bons momentos, éramos uma família normal. Ninguém queria matar ninguém (exceto a dupla: meu pai versus a mãe da minha mãe e vice-versa), mas não era essa história de "Somos MUITO felizes o tempo todo" como sempre é mostrado nos porta-retratos.

Sério, a vida não é como está lá. Se fossemos menos idealistas e fugíssemos menos da realidade teríamos em todas as casas fotos com gente simplesmente olhando séria pra câmera, entediada, dormindo, sentada na privada cagando, prostrada na cama com gripe com aquela cara amassada, discutindo, de saco cheio, lendo, lavando prato ou simplesmente vendo novela. Mas não. Não vemos essas poses nos porta-retratos. Insistimos em fingir que nossa vida é como aquele verão na praia... Mas que merda...

E por que, na maioria das casas onde há fotos com gente na praia, na verdade, é gente que mora em cidades longe do litoral? Sabe o que parece? Que só se é feliz na praia, ou seja, longe dali, daquela vida sem mar e areia. A pessoa tá dizendo: “Olha como aqui é legal, gente!" Aí nego vê essa foto de você no mar rindo que nem um pateta e sabe que tá no interior de Mato Grosso com você... Aí rola uma ansiedade, certo? Por que não botar uma foto de você andando na praçinha fudida da sua cidade, de baixo de um sol de lascar? Pô, mas sua vida não é essa? Seria mais realista e criaria menos idealizações.

Os porta-retratos acabam sendo uma projeção da nossa ilusão, de uma quimera idílica idealizada da felicidade perfeita. Eles são a materialização da vida para a maioria das pessoas que têm porta-retratos. As fotos do cara que se enfiou no laboratório e descobriu a penicilina e ajudou milhões de pessoas a não morrer ninguém quer pôr lá, né? Isso sim é mais realista e digno de menção! Eu preferiria ter uma foto dele na minha casa trabalhando até as 2 da manhã e chorando de dor de cabeça e de fome. Seria mais verdadeiro e inspirador, na boa! Nada de pôr na sala a foto do mendigo sujo e sofrido que dorme na esquina da sua rua porque é triste. Mas aquele coitado tá lá todos os dias se fudendo, mas ninguém quer lembrar dele.  Mas ele ta lá, velho! Ele tá lá!!! E assim vamos escondendo os problemas que realmente importam por trás de fotos da gente numa montanha-russa na Disney rindo como um drogado e com um boné do Pluto na cabeça.

Os porta-retratos modernos são agora as páginas das redes sociais como o Facebook. Lá tudo é festa, viagens e amigos. Pô, não tem a foto de ninguém de saco cheio olhando pro teto no trabalho? Garanto que tem mais gente enfastiada no escritório do que felizão nas ruas da Argentina! Se você olhar a página de todo mundo vai achar que a sua vida é uma merda pois lá só tem gente em festas, casamentos, estações de esqui, etc.. Mas você também põe lá só as fotos das suas viagens, casamentos e agitos e assim a farsa da eterna felicidade nunca termina...

Você olha pros porta-retratos e vê que a sua vida é totalmente diferente daquilo que está ali e o pior: aqueles momentos de felicidade são só 0,0001% da sua realidade. Ou você pode ir para praia ou pra Europa toda hora que dá vontade?

A verdade é que a vida nos porta-retratos é totalmente editada...


Adolar Gangorra, tem 72 anos, é editor do blog http://adolargangorra.blogspot.com/ e foi lambe-lambe muitos anos até resolver se meter a besta e fazer uma foto pra um outdoor...

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

HORRORÓSCOPO

Horóscopo é uma parada muito séria para ficar sendo publicada todo dia em jornais e revistas. Mas a gente sempre vê um monte de coisas legais ou que não querem dizer absolutamente nada nessas previsões do zodíaco diárias que são feitas só pra o leitor se sentir bem e voltar a ler de novo as mesmas baboseiras no dia seguinte. A verdade é que também acontecem coisas ruins na vida de todo mundo o tempo todo! Então nós contratamos um astrólogo macho de verdade - Adolar Gangorra - que não vai ficar pisando em ovos pra te dizer a verdade, beleza?

Ah, você gosta de horóscopo de jornal mesmo assim, né? Então toma...


CAPRICÓRNIO - HÁ HÁ HÁ HÁ! Que patética essa sua vidinha...

AQUÁRIO - Até agora a culpa é exclusivamente SUA por tudo o que já te aconteceu...

PEIXES - Tem certeza que você quer saber?

ÁRIES - Você vai receber uma herança, vai mudar para um emprego melhor e vai se apaixonar! Bem, na verdade não vai acontecer nada disso. É mentira. Você vai continuar como está: mais fudido do que puta na chuva!

TOURO - Você vai morrer um dia, sabia?

GÊMEOS - As coisas não estão boas nem pra você, nem pro seu irmão...

CÂNCER - Já que você tocou no assunto...

LEÃO - Esse é o pior ano de sua vida toda, tá bom? Então nem perca mais tempo lendo o horóscopo, ok?

VIRGEM - Você vai continuar assim!

ESCORPIÃO - Desculpe, mas você tá muito fudido, brother...

LIBRA - É melhor você ficar em casa pelos próximos 6 meses. Vá lá... 8 meses...

SAGITÁRIO - Nada de "novo amor", nada de "sucesso no trabalho", nada de “dinheiro”, nada de nada mesmo...


Adolar Gangorra tem 68 anos, é editor do blog Adolar Gangorra é do signo de Unicórnio!

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O PERIGO DAS CANTIGAS DE RODA!


O PERIGO DAS CANTIGAS DE RODA!

Os pais de hoje em dia vivem reclamando da violência a que seus filhos são expostos na mídia. E com toneladas de razão. Há uma série de abominações inomináveis em videogames, programas de TV, internet, filmes, paredes de banheiros públicos e na constituição brasileira (sendo as últimas duas a mesma coisa).

        Esses mesmos genitores sonham que seus filhos larguem aquele joguinho eletrônico sanguinolento para brincarem livres nas ruas. Entretanto, não se lembram que lá suas crianças irão entrar em contato com a ameaça mais perversa de todas. Um tipo de violência maior e mais escabrosa que está presente nas famosas e aparentemente inocentes cantigas de roda. Sim, amigos! Há gerações essas cançõezinhas contaminam nossos filhos com mensagens explícitas de uma violência medieval. A letras incutem na garotada crueldade, tragédias, bullying, desilusão, tristeza, comprazimento da desgraça alheia, etc. Também violência física e emocional e, basicamente, só contam histórias de tragédias sem sentido e sem nenhuma sensibilidade. E os pais ainda acham tudo lindo e saudável. Que equívoco mais miserável esse...

        Tudo isso acompanhado geralmente de coreografias circulares, a famosa brincadeira inútil de ficar girando sem parar, o que, convenhamos, não passa de uma idiotice sem tamanho. As crianças (ou adultos debiloides...) dão as mãos e cantam essas melodias simples, tonais, com âmbito geralmente de uma oitava, sem modulações e tão arrastadas e deprimentes que fazem a Marcha Fúnebre parecer um hit do Black Eyed Peas.

         O fato é que essas músicas, infelizmente, fazem parte do folclore brasileiro. De origem europeia, incorporaram elementos indígenas e africanos, além das brutais culturas portuguesa e espanhola. Assim sendo, não poderiam dar em outra coisa, senão em merda da grossa, né?

        Entre as cantigas mais conhecidas, estão títulos constrangedores e bizarros, como “Escravos de Jó”, “O Cravo e a Rosa”, “Ciranda, Cirandinha” e “Atirei o Pau no Gato”.

        Comecemos pela mais famosa e infame de todas...

ATIREI O PAU NO GATO

Atirei o pau no gato, tô
Mas o gato, tô
Não morreu, reu, reu

Dona Chica, cá
‘Dmirou-se, se
Do berrô, do berrô
Que o gato deu
Miau!

        Sem dúvida, “Atirei” não passa de um clássico de brutalidade extrema e selvageria para com os animais.

       Já começa muito mal, com a confissão de uma tentativa de assassinato. O criminoso revela friamente a maldade que fez - tacou um pedação de pau na cara de um inocente gatinho de rua! Em primeira pessoa, o selvagem descreve tranquilamente o ato vil que cometeu: Atirei o pau no gato, tô. Puta que pariu! Que covardia do cacete! Isso é uma cantilena inocente ou o relato de uma tentativa de gaticídio com requintes de crueldade? Isso, por acaso, é conteúdo para brincadeira de criança?

        Temos nessa letra imunda a prova cabal que a ação descrita pode ser enquadrada em crime doloso. Ou seja, com a intenção premeditada de matar: Atirei o pau no gato, tô / MAS o gato não morreu. Aí, a satânica e maliciosa conjunção MAS revela o intuito macabro de assassinar o bichano, lamentando insensivelmente o fracasso da empreitada.

        O coitado do gato levou uma traulitada no meio da fuça e saiu moribundo, se arrastando por um beco sujo e cagando sangue. O bicho sofreu uma volumosa hemorragia interna e vagabundo acha isso uma coisa legal pras criancinhas cantarem alegres no meio da rua? Que exemplo mais desprezível para nossa juventude...

        E que porra a tal Dona Francisca, aí claramente cúmplice da tentativa de gatassinato, ainda se admira do BERRO que o felino soltou. Dona Chica, cá / ‘Dmirou-se, se / Do berrô, do berrô / Que o gato deu / Miaauuu!. Na verdade, a Dona Francisca é uma ignorante inconseqüente do caralho, pois se mostra surpresa com o urro de dor do coitado do felídeo. Ela acha o quê? Que o bicho leva uma ripada no meio do beiço e ainda tem que dizer baixinho: “Muito obrigado por vocês, criancinhas traquinas e levadas da breca, terem tentado me trucidar. Não doeu nada, sabiam?”. Dona Francisca, sua sacana insensível.

         Notem que não foi uma miadinha leve ou um gritinho de susto, não. Foi muito pior. Foi um BERRO! Na boa, velho, nunca vi gato berrar. Gato mia, pô! Quem berra é gente sendo torturada e o meu tio bêbado na ceia de Natal. Isso só revela a contundência da porretada quase mortal que o miau levou. Pelo grito, devem ter atirado uma trave de futebol nas costelas do bichano, que dobrou feito um canivete de
pelo. O pobre felino é simplesmente um sobrevivente heroico de uma tentativa de execução por motivos fúteis. Com essa paulada covarde gastou tranquilamente seis das sete vidas que ele tem.

        E, não obstante, para fazer galhofaria barata com o ato de selvageria com o pobre animal, temos um “eco” cretino nas últimas sílabas de cada estrofe: ô, ô, / eu, eu / se, se. E ainda puseram um "MIAU" muito escroto no final, caricaturando e fazendo uma graçola com o bramido lancinante do gatinho. Cacete, é muita sacanagem com o bicho...

       Mesmo sendo uma escabrosidade inaceitável, essa canção acabou ganhando recentemente uma versão politicamente correta germinada por algum imbecil caga-regra com o título “NÃO ATIRE o Pau no Gato”:
Não atire o pau no gato (tô) / Porque isso (ssô) / Não se faz (faz, faz) / O gatinho (nhô) / É nosso amigo (go) / Não devemos maltratar os animais / Miau!
        Convenhamos, essa nova a-versão é de uma estupidez e uma histeria muito maior do que a agressivíssima letra original...


CIRANDA, CIRANDINHA

Ciranda, cirandinha
Vamos todos cirandar
Vamos dar a meia volta
Volta e meia vamos dar

O anel que tu me destes
Era vidro e se quebrou
O amor que tu me tinhas
Era pouco e se acabou

Por isso Dona Rosa
Entre dentro desta roda
Diga um verso bem bonito
Diga adeus e vá se embora


        Muito confuso para as crianças. Primeiro, a música manda dar MEIA volta. Depois ordena o contrário? ZERO em didática, hein? Por que MEIA volta e não uma volta inteira? É claro que eu e você (espero...) entendemos que esse termo é uma expressão de linguagem, mas ninguém de cinco anos sabe isso!

        Também ninguém explica o que seja “cirandar”. Mas que “legal”, não? Os pequeninos não têm a menor obrigação de saber o que quer dizer “ciranda”, que, na verdade, é um substantivo feminino que designa uma cantiga de roda infantil, provavelmente de origem portuguesa. O termo ciranda aplica-se também à dança de roda para adultos (retardados), muito popular no Nordeste brasileiro. Ou ainda pode significar aquele que vem de Cirene, na África antiga, ou até mesmo o termo "peneira", também conhecido como "joeira", que é um plano inclinado de madeira com fundo de ralo para limpar areia e cal do cascalho que traz junto. Ufa! Tenho eu que fazer aqui o que esses vagabundos se omitiram de explicitar ao criarem essa letra fere
incognoscível e mal-ajambrada do cacete.

        Depois temos: O anel que tu me deste / Era vidro e se quebrou / O amor que tu me tinhas / Era pouco e se acabou. Essa canção insensível incute nos infantes a tristeza e a desilusão amorosa exclusiva da vida dos ADULTOS... O amor que tu me tinhas / Era pouco e se acabou. Parece ser um conceito deveras complicado sobre um amor finito para a gurizada ficar repetindo lobotomicamente no meio da rua, não? Mais inadequado para os pequenos, impossível. É muita desilusão e mágoa para os inocentes petizes terem que lidar... Na boa, essas cantigas deveriam ter classificação indicativa também.

        “Anel de VIDRO”??? Essa cantiguinha bisonha ensina tudo errado! Pô, qualquer idiota sabe que anel é de metal. MAS É LÓGICO que a porra de uma argola de vidro vai quebrar. E ainda fazem um dramalhão do caralho por causa de um objeto que foi feito burramente para se esmigalhar. Francamente... letra mais cretina do cacete...


CAI, CAI, BALÃO

Cai, cai balão, cai, cai, balão
Aqui na minha mão
Não vou lá, não vou lá, não vou lá
Tenho medo de apanhar!

Cai, cai, balão, cai, cai, balão
Na rua do sabão
Não cai não, não cai não, não cai não
Cai aqui na minha mão!


        Outra historieta reles e desgraçada. Começa com um pedido, no mínimo estúpido, pra um balão cair na mão da própria pessoa. Como todo mundo sabe (menos o intelectualmente desafiado que escreveu esses versos absurdos...), balões, em geral, carregam FOGO em seu bojo. Mesmo assim, o demente quer que ele caia na MÃO dele! Idiota do cacete. Fazer o quê? Tem energúmeno pra tudo nesse mundo. Essa canção escabrosa estimula o criminoso uso de balões entre os pueris. O próprio título já é um pedido para que uma tragédia aconteça.

         Depois temos: Não vou lá, não vou lá, não vou lá / Tenho medo de apanhar! Lá A-ON-DE? Na boa, esse é um dos versos mais doentes que existem... apanhar de quem, PORRA? Não faz sentido. Mais uma canção irresponsável que insere a fobia irracional desde cedo no universo psicológico infantil. Essa cantilena deplorável é a trilha sonora perfeita para a Síndrome do Pânico.

        E, por último, convenhamos: “Rua do SABÃO” é um nome muito do escroto. Deve ser um lugar horroroso que faz a Vila do Chavez parecer alto astral...


PAI FRANCISCO

Pai Francisco entrou na roda
Tocando o seu violão
Bi-rim-bim-bão, bão, bão, bi-rim-bim-bão, bão, bão!

Vem de lá Seu Delegado
E Pai Francisco foi pra prisão.
Como ele vem todo requebrado
Parece um boneco desengonçado


          De longe, a cantiga mais deprimente e miserável de todas. É também um primor de abuso de autoridade, injustiça social, ignorância e também de “bi-rim-bim-bão, bão, bão” (ah, você achou que eu soubesse o que essa porra significa, né? Pois é... nem eu, nem ninguém, malandro...)

         Primeiro: quem é PAI Francisco? É um Pai de Santo? É um pai solteiro? Ele, por acaso, é o pai do autor da letra? Então, por que “PAI”? Que merda é essa? A música não explica absolutamente nada. Sabe-se somente que havia uma roda de vagabundos no meio da rua e que o Chiquinho quis entrar nela de idiota, pra tocar sua violinha fudida. Tava
a fim apenas se entrosar, fazer amigos, ser gente fina, talvez fumar um tchoize com os maloqueiros do lugar. Porém uma arbitrariedade horrorosa acontece: Vem de lá Seu Delegado / E Pai Francisco foi pra prisão. Que exemplo mais ameaçador e deprimente esse... Do nada, aparece um delegado ignorante que leva em cana o cara. O único crime que o pai parece ter cometido foi o de tocar mal seu violãozinho. É que para fazer “BI-RIM-BIM BÃO, BÃO, BÃO, BI-RIM-BIM BÃO, BÃO, BÃO”, o sujeito tem mesmo que ser um acéfalo sem talento. Ok, isso não é motivo para ele ir parar na cadeia, certo? Bom, talvez seja sim...

         E após perder sua liberdade por um motivo fútil, o tal Genitor Francisco é sacaneado selvagemente pelos
fdps que ficaram assistindo alegremente ao seu sofrimento: Como ele vem todo requebrado / Parece um boneco desengonçado. Coitado do Pai... se fudeu de verde e amarelo. “Parece um boneco desengonçado”... Nossa, é muita truculência para se apresentar aos pirralhos. Com cantigas absurdas como essa, criaremos uma legião de autômatos reptilianos no futuro.


A CANOA VIROU

A canoa virou
Pois deixaram ela virar
Foi por causa de Maria
Que não soube remar

Se eu fosse um peixinho
E soubesse nadar
Eu tirava Maria
Do fundo do mar

Siri pra cá,
Siri pra lá
Maria é bela
E quer casar


         Mais uma catástrofe funesta disfarçada de cantilena inocente. Tragédia, fofoca, delação e, provavelmente, injúria. Começa com um naufrágio com vítima fatal. Percebe-se logo o infortúnio ocorrido, pois a Maria se lascou toda. Morreu afogada e ainda foi acusada de causar o acidente náutico. Ou seja, a letra alardeia um desastre e, logo depois, uma acusação grave sobre a autoria da merda feita post mortem, sem direito à defesa. Na boa, isso não é coisa pra criança...

         Em seguida, temos mais uma cretinice imbecilizante nonsense: Se eu fosse um peixinho / E soubesse nadar / Eu tirava Maria / Do fundo do mar. MAS É ÓBVIO que todo peixe sabe nadar! Como assim “Se eu fosse um peixinho / E SOUBESSE NADAR” ??? E emenda: Eu tirava Maria / Do fundo do mar. Tirava porra nenhuma, porque tu acabou de admitir que tu é um peixe inútil que não sabe nem nadar. Tá falando merda, isso sim!

         Para finalizar, temos um despautério inaceitável sem absolutamente NENHUM sentido narrativo. No começo, afirma-se tragicamente que Maria morreu afogada: Siri pra cá, Siri pra lá / Maria é bela / E quer casar. Nã, nã, nã! Maria não quer casar mais não, moçada. Ela virou comida de peixe e quer, no máximo, ser enterrada decentemente. De bela, agora, não tem mais nada. E o que quiseram dizer com “Siri pra lá, siri pra cá”? A letra apresenta um detalhe escatológico de mau gosto supino. Como se sabe, siris são crustáceos necrófagos. Então, fica claro que eles devoraram freneticamente o cadáver de Maria, no “fundo do mar”, de “cá pra lá, de lá pra cá”. Sério, que asqueroso... Menino nenhum deveria ter contato com uma nojeira como essa...


O CRAVO E A ROSA

O cravo brigou com a rosa
Debaixo de uma sacada
O cravo saiu ferido
E a rosa despedaçada

O cravo ficou doente
E a rosa foi visitar
O cravo teve um desmaio
E a rosa pôs-se a chorar

A rosa fez serenata
O cravo foi espiar
E as flores fizeram festa
Porque eles vão se casar


        Essa é uma das mais revoltantes cantigas de roda já escritas! Conflito, violência e doença. É basicamente o lead de uma manchete desses
tabloides sanguinolentos que vemos nas bancas de jornais. Vamos lá: quem? O cravo. O que ele fez? Brigou com a rosa. Onde? Debaixo de uma sacada. Como aconteceu? O cravo saiu ferido / E a rosa, despedaçada. DES-PE-DA-ÇA-DA!!! Isso é coisa que criança tenha que ficar gritando no meio da rua? É muita violência doméstica. O cara trucidou a própria companheira, malandro! É o novo Crime da Mala do mundo das flores.

         Após essa série de tribulações hemorrágicas, temos mais um rol de calamidades que fariam qualquer autor de novela mexicana morrer deprimido: O cravo ficou doente / E a rosa foi visitar (sic). O certo seria “visitá-LO”. Erro grosseiro de Português apresentado para os infantis. Que vergonha... Depois, segue-se O cravo teve um desmaio / E a rosa pôs-se a chorar. Peraí: o marginal do cravo quase matou a coitada da rosa de porrada e depois DESMAIOU??? Como assim? Só pode ser bicha, então.

 
SAMBA LELÊ

Samba Lelê tá doente
Está com a cabeça quebrada
Samba Lelê precisava
De umas dezoito lambadas

Samba, samba, samba, ô Lelê
Pisa na barra da saia ô lá, lá
Pisa na barra da saia ô lá, lá
Ó morena bonita


        Outra narrativa macabra que relata a fria tentativa de assassinato de uma enferma indefesa, da forma mais cruel, pusilânime e covarde possível. Vejamos: quem é “Samba Lelê”? E que nome escroto é esse, “LE-LÊ”?
A primeira estrofe dessa canção odiosa já nos comunica uma miséria: que a tal Lelê está doente. Muito “adequado” para os pequeninos, sem dúvida... Em seguida, temos a extensão gore da história: Tá com a cabeça QUEBRADA. Deixem-me explicar uma coisa: Lelezona não tá doente coisa nenhuma. Ela tá na MORRENDO, isso sim! Essa trova imunda só revela a ignorância do populacho brasileiro. Cabeça quebrada = doença! Ah, tá ok então...

          Aí, algum “gênio” ainda sugere: Samba Lelê precisava / De umas dezoito lambadas. Que sádico abjeto! Depois de constatarem que a muchacha tá agonizando com o crânio rachado, algum marginal vota animadamente para chicotearem o pobre coitada. Isso é maldade pura, minha gente! No ápice da barbárie, aconselham aplicar 18 LAMBADAS na fudida. QUÊ QUE É ISSO? Querem açoitar um quase cadáver indefeso? Que nojento... E por que 18 e não 15 ou 20? Esse é o número mágico das chicotadas? Era a quantidade que fazia a Escrava Isaura ficar quietinha? Caralho, é pra arrasar a cabeça das criancinhas mesmo...

         Por fim, temos uma continuação ridícula e sem sentido: Samba, samba, samba ô Lelê / Pisa na barra da saia, ô lá, lá / Pisa na barra da saia ô lá, lá / Ó morena bonita. “Ó morena bonita”... What the fuck???


ESCRAVOS DE JÓ

Escravos de Jó
Jogavam caxangá
Tira, bota
Deixa o Zé Pereira ficar

Guerreiros com guerreiros
Fazem zigue, zigue, zá
Guerreiros com guerreiros
Fazem zigue, zigue, zá

        Mais uma musiquinha bisonha, detestável e, acima de tudo, confusa.
        Numa rápida pesquisa sobre o obscuro termo “caxangá”, temos:

1 - Um determinado chapéu militar.

2 - Um
tipo de crustáceo.

3 - Bairro da cidade do Recife, Pernambuco.

4 - Nome da maior avenida em linha reta do Brasil.

5 - Nome de uma fazenda localizada na cidade de Ouro Branco, no Rio Grande do Norte (estado que fica no NORDESTE...), mais conhecida pelo ridículo termo de Sítio Jerimum.

6 - Um
nome escroto apenas.

         Por último: quem é ZÉ PEREIRA e ele quer ficar ONDE, velho? Ah, quer saber? Deixa pra lá...

         Infelizmente, temos muitas outras cantigas de roda famosas como "Fui no Tororó", "Marré de Si", “Sapo Cururu”, "Marcha Soldado”, que não passam de um corolário torpe e desditoso de descalabros sem sentido. Todas desfilam aberrações sociais e psicológicas e foram projetadas para meninos e meninas ficarem repetindo-as que nem um papagaio cocainômano. A verdade é que essas cantilenas deprimentes e violentas voltaram recentemente à moda porque se achou que era um “resgate da cultura brasileira”, essas merdas. Supostamente elas serviriam como um antídoto para os “perigos da modernidade”... Hahahaha, mais equivocado do que isso só o Felipão e seu 7 a 1. O perigo presente nessas toadas execráveis é muito maior do que qualquer internet da vida.

        Caros pais
pseudoconscientes: deixem seus filhos jogarem Call of Duty, GTA e Mortal Kombat nº 740 e assistirem a séries violentas como Dexter e The Walking Dead ou a bosta do Faustão (pensando bem... Faustão, não deixem não... é demais!). Garanto que eles sofrerão menos ameaças a suas psiques ainda em formação do que se ficarem na rua berrando - e internalizando - essas ladainhas aparentemente inocentes, que pregam atirar pedaços de paus em gatinhos. A não ser que seja pra fazer um churrasquinho delicioso ou um tamborim de primeira linha, é óbvio.


 Adolar Gangorra tem 78 anos, é editor do log http://adolargangorra.blogspot.com/, e quando criança ouviu falar nos nomes de brincadeiras de rua como “Queimada”, “Carniça”, “Polícia e Ladrão” e rapidamente preferiu ficar em casa e aprender a jogar xadrez.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

MÔNICA E EDUARDO

O falecido Renato Russo era, sem dúvida, um ótimo músico e um excelente letrista. Escreveu verdadeiras obras de arte cheias de originalidade e sentimento. Como artista engajado que era, defendia os pontos de vista nos quais acreditava em suas letras. E por isto mesmo, talvez alguns deles excedam a lógica e o bom senso. Como no caso da música "Eduardo e Monica", do álbum "Dois" da Legião Urbana, de 1986, onde a figura masculina (Eduardo) é tratada sempre como alienada e inconsciente enquanto a feminina (Monica) é a portadora de uma sabedoria e um estilo de vida evoluidíssimos.

Analisemos o que diz a letra. Logo na segunda estrofe, o autor insinua que Eduardo seja preguiçoso e indolente (Eduardo abriu os olhos mas não quis se levantar: Ficou deitado e viu que horas eram) ao mesmo tempo em que tenta dar uma imagem forte e charmosa à Monica (enquanto Monica tomava um conhaque, Noutro canto da cidade, Como eles disseram.). Ora, se esta cena tiver se passado de manhã como é provável, Eduardo só estaria fazendo sua obrigação: acordar. Já, Mônica, revelaria-se uma cachaceira profissional, pois virar um conhaque antes do almoço é só para quem conhece muito bem o ofício.

Mais à frente, vemos Russo desenhar injustamente a personalidade de Eduardo de maneira frágil e imatura (Festa estranha, com gente esquisita). Bom, "Festa estranha" significa uma reunião de porra-loucas atrás de qualquer bagulho para poderem fugir da realidade com a desculpa esfarrapada que são contra o sistema. "Gente esquisita" é basicamente, um bando de sujeitinhos que tem o hábito gozado de dar a bunda após cinco minutos de conversa. Também são as garotas mais horrorosas da Via-Láctea. Enfim, esta a tal "festa legal" em que Eduardo estava. O que mais ele podia fazer? Teve que encher a cara para poder suportar aquele pesadelo, como veremos a seguir.

Assim temos: (-Eu não estou legal Não agüento mais birita.) Percebe-se que o jovem Eduardo não está familiarizado com a rotina traiçoeira do álcool. É ainda um garoto puro e inocente, com a mente e o corpo sadios. Bem ao contrário de Mônica, uma notória bêbada sem vergonha do underground.

Adiante, ficamos conhecendo o momento em que os dois protagonistas se encontraram (E a Monica riu e quis saber um pouco mais sobre o boyzinho que tentava impressionar). Vamos por partes: em "E a Monica riu", nota-se uma atitude de pseudo-superioridade desumana de Monica para com Eduardo. Ela ri de um bêbado inexperiente! A diante, é bom esclarecer o que o autor preferiu maquiar. Onde se lê "quis saber um pouco mais" leia-se "quis dar para"! É inaceitável tentar passar uma imagem sofisticada da tal Monica. A verdade é que ela se sentiu bastante atraída pelo "boyzinho que tentava impressionar"! Há um certo preconceito em se referir ao singelo Eduardo como "boyzinho". Não é verdade. Caso fosse realmente um playboy, ele não teria ido se encontrar com Monica de bicicleta, como consta na quarta estrofe (Se encontraram então no parque da cidade. A Monica de moto e o Eduardo de camelo.) Se alguém aí age como boy, esta seria Monica, que vai ao encontro pilotando uma ameaçadora motocicleta. Como é sabido, aos dezesseis anos (Ela era de Leão e ele tinha dezesseis.) todo boyzinho já costuma roubar o carro do pai, principalmente para impressionar uma maria-gasolina como Monica. E tem mais: se Eduardo fosse mesmo um playboy, teria penetrado com sua galera na tal festa, quebraria tudo e ia encher de porrada o esquisitão mais fraquinho de todos na frente de todo mundo, valeu?

Na ocasião de seu primeiro encontro, vemos Monica impor suas preferências, uma constante durante toda a letra, em oposição a humilde proposta do afável Eduardo (O Eduardo sugeriu uma lanchonete Mas a Monica queria ver o filme do Godard.). Atitude esta, nada democrática para quem se julga uma liberal. Na verdade, Monica é o que convencionou chamar de P.l.M.B.A. (Pseudo lntelectual Metida à Besta Associado, ou seja, intelectuerdas, alternativos e esquisitões vestidos de preto em geral), que acham todo filme americano é ruim e o que é bom mesmo é filme europeu, de preferência francês, preto e branco, arrastado pra caralho, e com bastantes cenas de baitolagem.

Em seguida, Russo utiliza o eufemismo "menina" para se referir suavemente à Monica. (O Eduardo achou estranho e melhor não comentar Mas a menina tinha tinta no cabelo.). Menina? Pudim de cachaça seria mais adequado. À pouco vimos Monica virar um Dreher na goela logo no café da manhã e ele ainda a chama de menina? Além disto, se Monica pinta o cabelo é porque é uma balzaca querendo fisgar um garotão viril ou porque é uma baranga safada impregnada de luxúria.

O autor insiste em retratar Monica como uma gênia sem par (Ela fazia Medicina e falava alemão) e Eduardo como um idiota retardado (E ele ainda nas aulinhas de inglês.). Note a comparação de intelecto entre o casal: ela domina o idioma germânico, sabidamente de difícil aprendizado, já tendo superado o vestibular altamente concorrido para medicina. Ele, miseravelmente, tem que tomar aulas para poder balbuciar "iéis", "nou" e "mai neime is Eduardo"! Incomoda a forma como são usadas as palavras "ainda" e "aulinhas", para refletir idéias de atraso intelectual e coisa sem valor, respectivamente. Coitado do Eduardo, é um jumento mesmo...

Na seqüência, ficamos a par das opções culturais dos dois (Ela gostava do Bandeira e do Bauhaus, De Van Gogh e dos Mutantes, De Caetano e de Rimbaud). Temos nesta lista um desfile de ícones dos P.l.M.B.A.s, muito usados por quem acha que pertence a uma falsa elite cultural. Por exemplo, é tamanha uma pretensa intimidade com o poeta Manuel de Souza Carneiro Bandeira Filho, que usou-se a expressão "do Bandeira". Francamente, "Bandeira" é aquele juiz que fica apitando impedimento na lateral do campo. A saber: o sujeito mais normal dessa moçada aí, cortou a orelha fora por causa de uma sirigaita qualquer. Já viu o nível, né? Só porra-louca de primeira.

Mais uma vez insinua-se que Eduardo seja um imbecil acéfalo (E o Eduardo gostava de novela) e crianção (e jogava futebol de botão com seu avô.). A bem da verdade, Eduardo é um exemplo. Que adolescente de hoje costuma dar atenção a um idoso? Ele poderia estar jogando videogame com garotos de sua idade ou tentando espiar a empregada tomar banho pelo buraco da fechadura, mas não. Preferia a companhia do avô em um prosaico jogo de botões! É de tocar o coração! E como esse gesto magnânimo foi usado na letra? Foi só para passar a imagem de Eduardo como um paspalho energúmeno. É óbvio, para o autor, o homem não sabe de nada. Mulher, sim, é maturidade pura!

Continuando, temos (Ela falava coisas sobre o Planalto Central, Também magia e meditação.). Falava merda, isto sim! Nesses assuntos esotéricos é onde se escondem os maiores picaretas do mundo. Qualquer chimpanzé lobotomizado pode grunhir qualquer absurdo que ninguém vai contestar. Por que? Porque não se pode provar absolutamente nada. Vale tudo! É o samba do crioulo doido. E quem foi cair nessa conversa mole jogada por Monica? Eduardo, é claro, o bem intencionado de plantão. E ainda temos mais um achincalhe ao garoto (E o Eduardo ainda estava no esquema "escola-cinema-clube-televisão".). O que o sr. Russo queria? Que o esquema fosse "bar da esquina - terreiro de macumba - roda de capoeira - delegacia" ? E qual é o problema de se ir a escola, caralho?

Em seguida, já se nota que Eduardo está dominado pela cultura imposta por Mônica (Eduardo e Monica fizeram natação, fotografia, Teatro e artesanato e foram viajar.). Por ordem: 1) Teatro e artesanato não costumam pagar muito imposto. 2) Teatro e artesanato não são lá as coisas mais úteis do mundo. 3) Natação e fotografia? Porque os dois não foram estudar para o concurso do Banco do Brasil? Vagabundos...

Agora temos os versos mais cretinos de toda a letra (a Monica explicava p\'ro Eduardo Coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar:). Mais uma vez, aquela lengalenga esotérica que não leva a lugar nenhum. Vejamos: a Monica trabalha na previsão do tempo? Não. Monica é geóloga? Não. Monica é professora de química? Não. Monica é alguma aviadora? Também não. Então o que diabos uma motoqueira transviada pode ensinar sobre céu, terra, água e mar que uma muriçoca não saiba? Novamente, Eduardo é tratado como um debilóide pueril capaz de comprar alegremente a torre Eiffel, após ser convencido deste grande negócio pelo caô mais furado do mundo. Santa inocência...

Ainda em, (Ele aprendeu a beber,), não precisa ser muito esperto para sacar com quem... é claro, com Monica, a campeã do alambique! Eduardo poderia ter aprendido coisas mais úteis como o código Morse ou as capitais da Europa, mas não. Acharam melhor ensinar para o rapaz como encher a cara de pinga. Muito bem, Monica! Grande contribuição! Depois temos (deixou o cabelo crescer). Pobre Eduardo! Àquela altura, estava crente que deixar crescer o cabelo o diferenciaria dos outros na sociedade. lsso sim é que é ativismo pessoal. Já dá pra ver aí o estrago causado por Monica na cabeça do iludido Eduardo.

Sempre à frente em tudo, Monica se forma quando Eduardo, o eterno micróbio, consegue entrar na universidade (E ela se formou no mesmo mês Em que ele passou no vestibular.). Por esse ritmo, quando Eduardo conseguir o diploma, Monica deverá estar ganhando o seu oitavo prêmio Nobel. Outra prova da parcialidade do autor está em (porque o filhinho do Eduardo \'tá de recuperação.). É interessante notar que é o filho do Eduardo e não de Monica, que ficou de segunda época. Em suma, puxou ao pai e é burro que nem uma porta.

O que realmente impressiona nesta letra é a presença constante de um sexismo estereotipado. O homem é retratado como sendo um simplório alienado que só é salvo de uma vida medíocre e previsível graças a uma mulher naturalmente evoluída e oriunda de uma cultura alternativa redentora. Nesta visão está incutida a idéia absurda de que o feminino é superior e o masculino, inferior. É sabido que em todas culturas e povos existentes, o homem sempre oprimiu a mulher. Porém isso não significa, em hipótese alguma, que estas sejam superiores do que os homens. São apenas diferentes. Se desde o começo dos tempos o sexo feminino fosse o dominador e o masculino o subjugado, vários erros também teriam sido cometidos de uma maneira ou de outra. Por que ? Ora, por que tanto homens, mulheres e colunistas sociais fazem parte da famigerada raça humana. E, como se sabe muito bem, é aí que sempre morou o perigo. Não importa quem seja: Monica ou Eduardo!

Adolar Gangorra tem 71 anos, é editor do periódico humorístico Os Reis da Gambiarra e não perde um show sequer dos "The Fevers" e do "Benito de Paula Cover".

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